sexta-feira, junho 23, 2006

Laudas às férias e ao Verão

O tempo estival corresponde ao apelo das férias, ao usufruto de dias de ociosa ocupação tão aguardados há meses. Poder descansar sem estar condicionado pelos estreitos limites tirânicos dos ponteiros do relógio, mandar às malvas compromissos e obrigações profissionais, quebrar por uns dias o automatismo mecânico de rotinas instituídas, rever pessoas do lado solar da vida, conhecer novas paragens ou regressar aos lugares marcados pelo afecto, recuperar o bálsamo psicossomático que alenta e sustenta a disposição para novo ciclo opressor de labores e suores...
O calor dilata a coluna do mercúrio e contrai a extensão dos tecidos em bronzeada exposição de carnes, decreta em sazonal trégua a densidade de pudores e delicia de sensual volúpia humores e sabores, numa amena informalidade relacional e deleite emocional. Assim se tempera a existência e nos damos razões para lamentar a morte e agradecer a sorte. Ser em férias é a expansão de nós connosco e aos outros, é o tentado paroxismo da fugaz e etérea felicidade que se fixa em mais duradouro presente.
Férias não rima com coisas sérias; conjuga-se em indicativa lentidão, escreve-se com os pés na areia e o tronco na esteira, celebra-se em reforçado líquido - que o calor dilata os copos e o que neles se deposita, e a sede, e hidrata a vontade no desejo de afogar e afagar o corpo em banhos de Sol, mar e demais carícias. Estio é cálido torpor e frouxa ambição: calar a formiga com o silvo da cigarra, render a austeridade da abnegação com o silêncio da lassidão e dizer sim onde tantas vezes se diz não.
Zelar pela ignorância acerca do noticioso caos do mundo: não saber quantos morreram hoje naquela terra que se devora em guerra, ou qual a última gaffe cometida pela estupidez bushista, ou as últimas injúrias e insinuações do dirigente xis que provoca o clube ypsilon, ou as mais recentes medidas legislativas congeminadas pela energúmena incompetência dos vampíricos governantes, ou a oscilação de câmbios e bolsas, ou...
Fazer das férias a possível imperfeição de uma obra de arte; dar um tiro na asfixia capitalista: o prazer do ócio, o gozo do descanso, a plenitude tolerada da descontracção e... Verão!
P.S. - Embora ainda esteja agrilhoado com os ossos do meu ofício, faço votos de Boas Férias a todos os que, honrando-me com a amabilidade da sua visita a este blogue, têm dado quórum a estes textos de intuito catártico e partilha reflexiva.

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9 Comments:

Blogger O Micróbio II said...

E aí estão eles... os professores já a pensarem em férias!! :-)

12:37 da tarde  
Anonymous MORFFINA said...

Também queeeeeeeeeeerrrrrrrrroooooooo!!!!!

Para mim, só lá para fins de Julho.

A vida de professor é realmente uma maravilha. Podemos tirar férias quando quisermos. Faltamos como o caraças. Não temos desgaste nenhum. Ganhamos bem ...

Só queria dar oportunidade a alguns para dar aulas durante um mês. Com algumas turmas não aguentariam uma semana.

7:11 da tarde  
Anonymous MORFFINA said...

Boas férias, Miguel! Abusa de tudo um pouco, menos do sol. Esse "Austral" descanso será bem merecido.
Abraço para ti e um beijinho (no rosto) para a Adelaide.

MF

7:19 da tarde  
Blogger O Micróbio II said...

Aceito a troca, Morffina. Terás é de contentar com trabalho (não confundir com emprego) entre as 9h e as 18h e depois entre as 20h e as 23h com sessões de formação profissional... que acarreta consigo a preparação das sessões fora do horário do trabalho! Também posso duvidar que alguns não aguentariam dois dias, quanto mais uma semana!

11:01 da tarde  
Anonymous MORFFINA said...

É a sorte divina, Micróbio.

Abraço

MF

3:16 da tarde  
Blogger O Micróbio II said...

POdes crer, Morffina... até dizem que a vida de professor é uma vocação...

9:16 da tarde  
Anonymous Anónimo said...

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