terça-feira, junho 06, 2006

O preço da pax americana

Há em África uma guerra que dura há três anos e já matou mais de 300 mil pessoas e provocou milhões de desalojados e refugiados. No Darfur, em paupérrimo território sudanês, prolonga-se o confronto sangrento que opõe milícias pró-governamentais e rebeldes e que não parece ter fim à vista. É actualmente o foco de conflito mais trágico e, apesar disso, os média quase ignoram esta circunstância, convertendo em pequeno rumor o ensurdecedor grito de sofrimento de tantos civis inocentes.
Por seu lado, na antiga Birmânia, hoje Myanmar, o país vive sob o jugo de um regime ditatorial igual ou pior do que o iraquiano na era de Saddam.
Os exemplos multiplicam-se por esse mundo fora e se o discurso oficial da diplomacia e política externa dos EUA, que justificou a invasão unilateral do Iraque, fosse consequente e baseada em premissas verdadeiras, certamente que, muito antes do facínora shiita, outros ditadores teriam sido depostos pelos falsos arautos da paz e da democracia, sediados em Washington e Londres, enquanto estes apoiavam Saddam na guerra que empreendeu contra o Irão. Mas isso não aconteceu pela simples razão de que ou as ditaduras são subservientes aliadas dos EUA (como a Arábia Saudita e o Paquistão) ou, não o sendo, não albergam petrolíferas riquezas e outras fontes de prosperidade predatória que não são de enjeitar. Assim se erige o "Império do Bem" em torno do eixo anglo-americano.
Se as relações internacionais não fossem baseadas em desumanas relações de poder e de exploração económica, Kissinger estaria a apodrecer na cela de uma prisão (em vez de se passear no mundo em tenebrosas conferências) e Bush e Blair seriam os réus mais mediáticos do TPI, como criminosos de guerra responsáveis por terrorismo de Estado. O que lhes vale é que são eles que ditam as regras e vendem a pax americana. Além disso, à custa de tanta invocação em tomadas de presidencial posse, grafadas também no vil metal (in god we trust), a fórmula teocrática parece dar resultado.
Nesta reabilitação do espírito templário de Cruzada contra os ímpios gentios na sua própria terra, resgatar e preservar o Santo Graal / Ouro Negro, a utilidade da guerra radica na venda da paz e da democracia; e, nesta acepção de paz, o Sudão e Myanmar, por exemplo, nada têm a que os EUA possam deitar a mão. Por conseguinte, também fazer a paz é um investimento que só vale a pena se, com a graça de Deus, tiver retorno e lucrativo proveito. God Bless America!

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