domingo, setembro 30, 2007

Partido Suficientemente Desfeito

A recente eleição de Luis Filipe Menezes para a liderança do PSD e as diatríbicas peripécias que a revestiram são a prova inequívoca de que Portugal continuará a ser nas décadas próximas um país mal governado e irremediavelmente condenado a fracassar nos índices de justiça social e desenvolvimento económico equilibrado e equitativo. 2009 aproxima-se e o anátema da continuidade do governo PS para além desta década parece ganhar contornos de confrangedora inevitabilidade: a alternativa persiste em afigurar-se igualmente má, se atendermos que só o maior partido da oposição é elegível para o poder, graças a uma bipolarização partidária com que o eleitorado português lamentavelmente teima em restringir o acesso ao arco de governação.
Nenhum social-democrata pensaria que o PSD chegasse ao ponto a que chegou e fosse liderado por um militante tão ideologicamente inconsistente e politicamente imprevisível, como é o presidente da edilidade gaiense. Por outro lado, desta eleição ficaram gravosos despojos dificilmente sanáveis, sendo o PSD actualmente um partido descredibilizado, aflitivamente fracturado e dividido, um Partido Suficientemente Desfeito por lutas internas entre barões e notáveis que preferiram estar na sombra durante a vigente penosa travessia no deserto de poder. O PSD é uma espécie de armazém de clones de Durão Barroso, de gente que recusa continuar no barco ao mínimo vestígio de tempestade, indisposta a assumir corajosamente as dificuldades de militância em tempos adversos, incapaz de arriscar a mediática áurea de salvadores, avessa a beliscar a reputação durante as incómodas contrariedades, movidos que são apenas pelo jogo seguro das estações propícias e favoráveis do exercício do poder.
Ao cinzento e inofensivo Marques Mendes sucede o populista e demagogo Menezes - Paulo Portas tem agora um homólogo à altura e a direita fica mais homogénea no discurso político próximo; e suspeito que a falácia da analogia tenha nestas internas um exemplo: governar uma autarquia, mesmo que uma das maiores, não é o mesmo que governar um país. Além disso, os incidentes com o pagamento de quotas expuseram claramente os meandros de caciquismo e corrupção que movem a vida interna dos partidos, designadamente os maiores e que atraem militância com a conveniência do oportunismo e não pela convicção das ideias. Aliás, PS e PSD são um enorme saco onde cabem as mais díspares idiossincrasias, cuja pouco séria conjugação é fautora do descaracterizado «centrão político».
Mais do que Menezes, temo que possam ter sido Sócrates e o seu governo que ganharam com as directas no PSD. Infelizmente, Portugal perdeu - mas, num exercício democrático com contendedores assim, outra coisa não seria de esperar. Tal como a nossa selecção de rugby, vale-nos a ilusão dada pela força do hábito e o contentamento das vitórias morais!

2 Comments:

Blogger Joshua said...

É gente de mais a dizer precisamente a mesma coisa sobre Menezes.

Só mesmo Menezes-pessoa para superar esse Menezes-imagem.

3:18 da tarde  
Blogger morffina said...

Esse "grande" vareiro convertido a portuense / gaiense e agora em candidato a homem de estado é o tipo de político da preferência de muito portugûes, o tipo autarca de muita fanfarra e dinâmico (no sentido de fazer muito barulho e criticar e ...).
Vai longe o jovem de 52 (?) anos.

The show must go on.

5:46 da tarde  

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