terça-feira, junho 26, 2007

Israelitas com pele de cordeiro

Qualquer que seja o posicionamento que adoptemos sobre o longo conflito israelo-palestino, é impossível discordar do facto de que tem havido uma desproporção na brutalidade e amplitude de resposta das forças armadas israelitas às provocações de movimentos como o Hezbollah e o Hamas. O poder bélico de Tel Aviv baseia-se no princípio do castigo colectivo (civis, mulheres, crianças, idosos) e na estratégia musculada do uso da máxima força. Se bem que não haja inocentes e de ambos os lados o comportamento seja reprovável, não se pode comparar o lançamento de rockets caseiros Quassans com os ataques de F16 e Apaches; e é também incomparável a captura de um soldado israelita (que serviu de pretexto aos bombardeamentos de há um ano no sul do Líbano e em Beirute) com o rapto e detenção de milhares de palestinos militantes da resistência ou simplesmente suspeitos. Na verdade, no dia anterior à captura do soldado Shalit, o exército israelita tinha raptado vários palestinos em Gaza.
Com o silêncio conivente do Ocidente, em especial dos EUA, tudo serve para calar a crítica à ocupação de Israel, que já vai em 40 anos. Mas esta tem sido uma estratégia desastrosa do Estado judaico, pondo em causa a sua própria segurança, uma vez que a paz e o reconhecimento mútuo não passarão pela força dissuasora das forças armadas israelitas nem pela construção segregacionista de vergonhosos muros divisórios... Pelo contrário, o recurso à desproporção na resposta a todo o tipo de «intifadas» só aumentará e reforçará a espiral de violência e o ódio dos dilacerados e humilhados palestinos.
O actual governo do Kadima, de Ehud Olmert, insiste em delinear unilateralmente as fronteiras de Israel, consolidando a discriminação. Esta evitável conjuntura decorre da política de Israel e dos EUA em recusarem a eleição, apesar de tudo democrática, do Hamas e, assim, subtraem-se a toda a negociação sensata, à semelhança aliás do que aconteceu no Iraque. Foi a partir de Benjamin Netanyahu que se sucedem as oportunidades de paz perdidas e se desbaratam "processos de paz", fruto do discurso dúplice e de uma lógica hipócrita - desde as guerras de 67 e 73, têm sido de curto prazo e etnocêntricas as políticas fracassadas de Israel.
Em 1982, querendo esmagar a OLP, de Yasser Arafat, com a invasão do Líbano, o que Tel Aviv conseguiu foi pretextar a criação do Hezbollah; durante a «primeira intifada», a promoção do Hamas como contrapeso à Fatah resultou na expansão do movimento islamista. E que dizer da ambição cega e autista em manter e expandir os colonatos judeus após os Acordos de Oslo? E, mais recentemente, a arrogância estúpida de Israel de ter explorado e humilhado Arafat e a Autoridade Palestina e não ter produzido um acordo final e justo quando havia uma oportunidade? E a ainda mais recente tentativa, bem à maneira dos métodos da CIA no estrangeiro, de isolar o governo do Hamas (com a inqualificável apropriação israelita de receitas de impostos dos palestinos) e conspirar numa cisão entre Ismail Haniyeh e Mahmoud Abbas? A estratégia de Israel não consiste na resolução do conflito com base na solução de dois Estados viáveis, mas antes a submissão dos palestinos a um Estado-fantoche fundado na dispersão e a anexação sem compensações da maior parte dos colonatos da Cisjordânia.
Pela extensão nas repercussões que tem, esta guerra no Médio Oriente deve apoquentar todo o mundo. E, para evitar o desastre, há que lembrar ao povo israelita que o Holocausto, sendo um facto histórico vergonhoso para o conjunto da humanidade, é, no entanto, já coisa do passado e que esse povo em particular foi generosamente ressarcido; caso contrário, a persistirem no papel de vítimas, são agora os israelitas que se convertem em lobos com pele de cordeiro e se arriscam a ser os carrascos de si próprios, à imagem... do nazismo!

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3 Comments:

Blogger O Micróbio II said...

Parece incrível como não tenhas colocado a Igreja Católica como culpada em todo este processo...

11:33 da manhã  
Anonymous Sem Quorum said...

É verdade, caro Micróbio, e ainda bem que o constatas! É o que dá ter a coragem de usar a razão livremente e sem compromissos doutrinários; mas para quem vê o mundo a preto e branco e depende de imperativos de sacristia, deve ser coisa difícil de compreender...
Abraço e cumprimentos ao padre! :)
ALM

3:16 da tarde  
Blogger morffina said...

Unsere kampf!!!!

7:55 da tarde  

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